Caderno de rascunhos

Este blog foi escrito de 2016 a 2018 antes de migrar para o Sapo Blogs. Hoje em dia, funciona como um caderno de rascunhos e memórias. Antes, chamou-se ''Ponto de Encontro''.

Deixei de gostar de ti!


Houve um tempo que sim, queeu dizia a todas as pessoas ''gosto muito de ti'', ''estás muito bonita(o), '' és incrível'' e que abraçava toda a gente, várias vezes por dia. Não, porquesou a mais fraca ou carente, a mais menina, miudinha, franzina, a que precisacaridade, de mais carinho ou mais amor, atenção, aquela que, apesar de adultanão passa de uma ''teenager'', uma rebelde adolescente aos olhos da maioria só porcausa da minha aparência, porque eu tenho uma deficiência. Como se isso meroubasse o direito de ser mulher, como se não fosse uma mulher com o mesmo queas outras têm.  
Bom... onde eu ia mesmo?!Ah... no ‘'gosto muito de ti''. Nunca o disse pela razão acima referida, masporque eu penso que a vida não é eterna, há pessoas que se vão para nunca maisvoltar e é quando elas estão connosco que devemos exagerar no carinho e dizer oquanto gostamos delas todos os dias. É preciso amar incondicionalmente e vivera vida intensamente todos os dias!
Quando eu manifestava o meucarinho, as pessoas infantilizavam o meu gesto, riam-se (rir-se do carinho quetu demonstras por alguém?!) e achavam-me exagerada. Outros, sentiam-seenvergonhados e ficavam desconcertados (não vá alguém pensar que se estão aaproveitar da miúda deficiente) como se eu gostasse de'' comer'' qualquercoisa.... Ai meu Deus! Valorizem-se, mas enxerguem-se! Façam esse favor a vocêspróprios. Ou os muito adultos que não se abraçam... Depois, vinham os''responsáveis'' chamar-me a atenção... Que seria de mim sem eles? Pobrescoitados é o que são. Antes de me quererem acertar, acertem-se a si próprios. Ésó o que vos digo.
Isso magoava-me, mesmo queeu não dissesse ou mostrasse, porque faço-me de tola muitas vezes para nãochatear ou para me proteger até ao dia que parei e fez-se luz dentro da minhacabeça, ''se me magoa é porque não são as pessoas certas para fazer parte daminha vida'', então... aos poucos fui-me desapegando de todas as maneiras.
Afinal, eu não queroaborrecer nem constranger ninguém com os meus gestos de carinho. E, de repente,comecei a fazer falta. Mas, a carente era eu, não era?
Durante um tempo aceitei asmigalhas que me davam, permiti que fizessem caridade comigo e que me invadissemporque quando nós estamos vulneráveis deixamos que nos tratem da forma que lhesapetecem... Até que nos mandem limpar a boca. É verdade. Deixamos que,quaisquer pessoas saibam das nossas histórias, desabafamos com qualquer um e,ainda se sentem os salvadores do mundo.
Fazem-nos acreditar que nãosomos mais do aquilo, a apêndice de alguém, os necessitados do mundo, que semeles, nada seríamos. Foi assim que  eupermiti que muitas pessoas durante muito tempo me tratassem. Como se, antes aster conhecido já não era gente.
Sinceramente? Eu penso queessas precisam de se sentir úteis e, aproveitam-se de outras para se elevar.(pessoas muito caridosas, generosas, bondosas... e o raio que as parta).
Como diria Martha Medeiros: '' estar com alguém só para não estar sozinho é uma solidão mal administrada.''E é mesmo! Era assim que eu me sentia.
Eu sempre fui mais que issoe vou continuar a ser. Estarei sozinha quando a vida assim quiser e acompanhadade pessoas que me valorizem, que gostem da minha pessoa e não se comovam com aminha deficiência. Eu não deixei de ser gente por isso, muito menos, mulher!Aqueles que quiserem fazer caridade, pois que vão para a porta da igreja dar esmola!E, de certeza, haverá alguém neste mundo que me vai ver, não é ao calhas que omundo tem cerca de 7 bilhões de pessoas, não é verdade?


As pessoas são mais do quetêm! São universos sem fim com qualidades e defeitos! Todos merecemos mais doque beijinhos na testa e palmadinhas nas costas.




Fotografia da minha autoria

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