Caderno de rascunhos

Este blog foi escrito de 2016 a 2018 antes de migrar para o Sapo Blogs. Hoje em dia, funciona como um caderno de rascunhos e memórias. Antes, chamou-se ''Ponto de Encontro''.

Na rua de todos os segredos

Na rua de todos os segredos,
Mora o Passado que deixou de sair de casa há muito,
Sentado na taberna com o seu copo de vinho meio cheio está o Esquecimento, que, ainda se lembra de quando era novo.
A ver quem passa por detrás das cortinas de renda minuciosamente bordada à mão, está a Dona Saudade. O senhor doutor recomendou-lhe beber 2L de água por dia para compensar a imensidão que chora todo o dia.
A lavar a valeta com o sangue das feridas abertas, pode-se ver a Dor.
Lá no cimo do monte espreita-se a Memória, que se esqueceu do caminho de volta.
Se virarmos a esquina está a menina Recordação a fazer recados à senhora Lembrança.
À esquerda, está o anão chamado Medo, o rapaz passa o dia a tremer, não se sabe porquê. Diz ele que é segredo.
E, pela rua abaixo de sacola às costas, meio adormecido, com o rosto a escorrer de lágrimas, vai o Coração.
Pois, perdeu a menina dos seus olhos, a sua Felicidade. Foi-se embora sem avisar ninguém.
Em tempos, morou na rua a linda Alegria,
Filha da senhora Esperança, dona da mercearia e do senhor Contente,
Mas, após o desaparecimento misterioso do menino Feliz, filho mais novo do casal.
Ninguém sabe direito o motivo, mudaram-se de moradia.
Dizem as beatas pouco coscuvilheiras que foi a impiedosa Maldade,
É poderosa e tornou-se dona da cidade.
Com ela, vieram o seu marido Rancor, os filhos Ira e Ressentimento e, ainda a pobre sobrinha Solidão cuja mãe faleceu, a Infelicidade, irmã da Maldade.
Na rua de todos os segredos, ninguém sabe de nada,
Passam-se coisas esquisitas mas toda a gente diz que é segredo.
Os únicos que podem saber a história da rua são o passado e o medo.
Mas, o passado diz que não vale a pena falar no que já passou e o medo só treme o dia inteiro.
A Saudade chora rios e mares toda a vez que se lembra.
A Recordação ainda é menina, a Lembrança é velha, diz que quer viver o fim da sua vida em paz.
O Esquecimento faz-se de esquecido e a Memória ainda não regressou a casa.
A Dor tem as feridas abertas, recusa-se em contar seja o que for.
Restam as beatas Maledicência e D. Maria Cusca que dizem tanta coisa, sabe-se lá o que é verdade.
No fundo, toda a gente sabe de alguma coisa mas ninguém conta nada.
O presente arranjou emprego noutra localidade e o comboio do futuro vem atrasado.
E quando se pergunta à rua o que lhe aconteceu, ela diz que é segredo.




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