Espreito-te todos os dias por aquela janela, a mesma janelapor onde sempre te vi e que nunca sequer imaginaste que te via por lá. Não tevejo claramente nem falo contigo, só te espreito de mansinho para ver secontinuas ali, sem esperança pois esta morrera outrora. Morreu quando parti.Quando decidi partir, quando peguei na metade do pouco que tinha, deixandofragmentos das minhas memórias, dos meus ideais e dos meus sonhos espalhadospor toda a parte e saí meio atordoada... de cabeça afincada no que tinha defazer (arrumar tudo antes do dia, não me esquecer de nada, ir ali e acolá,limpar tudo, não deixar nada), determinada sem ouvir nem sentir a dor que metorcia o ser. Mas tinha de partir. Matar ou morrer era a alternativa. Entãodecidi partir e continuar a viver, matando assim, tudo aquilo que me estava a matar.
Tenho saudades tuas! Saudades? Ridículo sentir saudadesdo que nunca tive nas minhas mãos, mas sinto-as mais vivas do que outra coisadentro de mim. Às vezes dou por mim a sorrir sozinha, quando ninguém me vê.Sorrio porque penso em ti. No pouco que te tive, se posso dizer que te tive. Eusei que não devia alimentar-te em mim, mas confesso que me faz bem.
Hás-me sair de mim quando for tempo, porque há tempo paratudo e tudo tem o seu tempo. Não receio. À mesma não voltarei a ter-te como tetive nem como nunca te tive. Enquanto isso, espreito-te pela janela sempre quea saudade de não te ter tido (como queria) e a saudade de te ter tido foremmaiores do que eu. É segredo. Eu gosto de segredos. E tu? Uma vez disseste-meque éramos iguais. Pois somos.
Há uma teoria para esses lados que para se fazerem homense mulheres têm de ir à discoteca Paraíso. Ridículo. Só meninos e meninas é quepodem dizer uma infantilidade dessas... experimentem não enlouquecer duranteuma tempestade de recusa, preconceito, de tudo não correspondido, deirrealizações, de solidão e, de um minuto para outro, decidir: Eu vou-meembora! Arrumar tudo às três pancadas, deixando metade para trás e sair demadrugada, largando tudo num contentor de misérias...
Agora estás bem? Eu estou. Mas nunca fui à discotecaParaíso. Continuo a ser menina? Talvez. Ainda bem. Nunca fui a essa discoteca,mas fui ao Inferno, se pequei antes, certamente que sim, paguei por todos osmeus pecados até então.
Mas conheci-te! Deu tempo. Não te digo adeus porqueenquanto vivemos, tudo pode voltar. Espero não voltar ao lugar imundo ondeestive parada, mas ver-te novamente a olhar para mim, nem que seja derelance... a sorrir.
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