Caderno de rascunhos

Este blog foi escrito de 2016 a 2018 antes de migrar para o Sapo Blogs. Hoje em dia, funciona como um caderno de rascunhos e memórias. Antes, chamou-se ''Ponto de Encontro''.

Reflexão: História de vida - parte II

Antes de começar, gostava de esclarecer que nada do que estáescrito aqui é diretamente para alguém nem contra ninguém. Quando digo ''àminha volta'', refiro-me ao mundo em geral e não a lugar específico assim comoquando falo em pessoas ditas normais refiro-me à generalidade e não a umapessoa em especial. O maior preconceito que existe contra nós é de nós para nós mesmos.Posto isto, antes de me acusarem desse mal, pensem no que fazem, diariamente,SÓ por medo do que os outros vão pensar. Eu admito o meu possível preconceitosobre mim e vocês admitem o vosso sobre vocês mesmos?

Eu não estou, propriamente, revoltada, mas quanto maispenso nisso, mais me revolta. Toda a gente que me lê já sabe que tenho umadeficiência e todos aqueles que convivem comigo sabem que eu admito as minhasdificuldades e quando eu preciso de ajuda, sou a primeira a pedir. Por outro lado,penso que é bem visível que eu tenho muita iniciativa e estou sempre a tentarsuperar-me e, em muitas situações, antes de pedir ajuda, eu tento mil vezes emais uma, fazer seja o que for. No fundo, eu corro atrás! Eu acho que uma daspiores ''coisas'' do mundo é depender de alguém e, como sempre digo, enquanto aminha ''massa cinzenta'' funcionar, eu não paro nem deixo que me parem. Embora,muitas vezes, a minha determinação e tenacidade sejam confundidas com revolta emau feitio..., mas, volto a dizer algo que já mencionei antes: não queiramdepender nem queiram que alguém dependa de vocês. É o pior que há, e acho quese alguém que me está a ler, passa ou passou por um dos dois, saberá do quefalo. Não é que eu não precise de ajuda ou não queira ser ajudada, mas como dizo ditado ''Só quem vive no convento é que sabe o lá se passa''. No entanto,relativamente a questões mais sérias e delicadas, tenho muita resistência emser ajudada, porque a minha pequena experiência no assunto ensinou-me a ir porconta própria. Não digo a maioria, mas uma boa parte das pessoas ditas normaisquando ajudam as pessoas com deficiência não veem a pessoa tão capaz comorealmente ela é, outras que tais, só ajudam para seu próprio benefício, paraserem aplaudidas pela sociedade ou para cobrarem algo em troca e terem sempre ocontrole sobre a pessoa em questão e situação. (mas não é preciso ter umadeficiência para se ser vítima dessas situações, embora o contexto presenteseja esse). Ajudar em questões profissionais, sociais e de saúde não é a mesmacoisa que abrir uma garrafa de água ou tirar espinhas de um peixe. Um pequenoerro pode incapacitar a pessoa com deficiência e inseri-la em programas ounoutro meio que ela não necessite de estar.
BOM..., mas o assunto que me traz aqui não sou EU, EU,EU. Mas eu, como pessoa com deficiência. Eu, como pessoa com deficiência,defendo e penso mesmo que a melhor ajuda que se pode dar a uma pessoa comdeficiência é ''atirá-la aos lobos''. Dentro das suas condições, claro. Hápessoas e pessoas. Deficiências e deficiências. O que eu quero dizer é que nãose deve proteger. Quanto maior a proteção, maior é o medo, menor é a capacidadede agir, de iniciativa. E isto, é também válido para todas as pessoas do mundo.Uma pessoa nasce para o mundo e não para uma redoma, quanto mais se protegemenos se conquista. É preciso deixar a pessoa ir contra uma parede, se a pessoase espetar e partir-se toda é porque tem de melhorar a manobra e tentarnovamente ou porque não consegue mesmo, se a pessoa conseguir evitar a parede éporque está apta para o ataque. Até mesmo para a pessoa ter noção das suasdificuldades e melhorar, sobretudo, para aprender a admitir as suas falhas, see quando for o caso. Mas é necessário libertar e ter presente que todas aspessoas erram porque são seres humanos e não tem de ser, obrigatoriamente, pelasua condição. Viver significa: cair, levantar-se, melhorar, continuar. E,claro, ser feliz, mas não há felicidade sem quedas. Eu falo muito deste assuntonão para me fazer de coitadinha nem apelar a nada, mas é verdade que faz partede mim e do meu dia-a-dia. Se devia não falar tanto e esquecer um pouco,ignorar mais? Talvez..., mas à minha volta, vejo tanta anormalidade vinda depessoas ditas normais: ''coitadinha(o)!'‘, ''ela(ele) não pode'', ''é melhorajudar para não acontecer nada...'‘. Tanto faz se é para mim ou para outraspessoas com deficiência, mas por amor de Deus! Será que um (d)eficiente nãopode cair, experimentar? Será o fim do mundo se um (d)eficiente errar? Um(d)eficiente não pode ficar nervoso, não pode sair da linha para serconsiderado capaz?!
 Às vezes, tenho essa impressão: uma pessoa (d)eficientenão pode sair do eixo, da linha... tem de ficar e ser impecável para que sejaconsiderado capaz de alguma coisa, enquanto que, uma pessoa dita normal secometer um deslize é super normal. Se uma pessoa dita normal fica nervosa, estásob stress. Se um (d)eficiente fica nervoso, é só (d)eficiente. Se uma pessoadita normal chora, está triste. Se um (d)eficiente chora, é (d)eficiente. Seuma pessoa dita normal tem a casa desarrumada, está cansada. Se um (d)eficientetem a casa desarrumada é (d)eficiente. Se uma pessoa dita normal estádesmotivada, tem depressão. Se uma pessoa dita normal está deprimida, precisade sair, se distrair, desanuviar. Se uma pessoa (d)eficiente está deprimida,precisa imediatamente de acompanhamento porque é (d)eficiente. E por aífora...ou seja, para as pessoas ditas normais, há milhões de desculpas ejustificações para as falhas e erros das pessoas ditas normais, mas para o(d)eficiente há só um rótulo: DEFICIENTE. Como pessoa com deficiência, euadmito que tenho as minhas inseguranças, os meus medos e as minhas dificuldades,mas garanto que, eu nunca desisti de tentar melhorar, de me esforçar, de lutarcontra os meus medos. Ainda não desisti. E sim, eu preciso de ajuda para muitascoisas e sempre precisarei, mas isso não invalida que eu não possa superaralgumas delas, mesmo que tenha de recorrer à minha própria forma de ultrapassardificuldades e resolver situações, embora que as excelências ditas normais,achem isso desadequado e pouco comum.
Diz-se que as pessoas (d)eficientes são mais sensíveis,mais emocionais mais vulneráveis, ficam mais nervosas, mais cansadas. Até háestudos que confirmam isso. Não digo que não aconteça comigo, que não sejaverdade. Mas não há nada que não se aprenda. E, é como pessoa com deficiência quepergunto:  o fato de uma pessoa ser ditanormal tem mais direitos à vida, à liberdade, ao amor, ao mundo do que aspessoas (d)eficientes e por ser dita normal pode decidir o que os (d)eficientespodem e devem fazer, como devem viver e é quem sabe o que melhor para elas(nós, (d)eficientes)?  Quem são vocêspessoas ditas normais?! Será que essas pessoas ditas normais que sabem tudo,sabem por onde anda a sua vida e o que é melhor para si?!


As pessoas ditas normais consideram tudo estranho,invulgar e desadequado porque veem o mundo só de uma frente, de uma forma e deuma cor apenas.
As pessoas (d)eficientes têm de avaliar várias frentes eexperimentar uma coisa de várias maneiras até encontrar a sua, por isso, veem omundo às cores.

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